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A formação de profissionais em logística: algumas considerações


Introdução

A formação e o desenvolvimento profissionais são assuntos debatidos, regularmente, quando se discutem os relacionamentos entre o indivíduo, a escola e o trabalho. Em nossa sociedade, a maior parte dos integrantes que ingressa no processo educacional o faz na expectativa de obter instrumental necessário à sua realização pessoal e, principalmente, à sua empregabilidade. Na prática, o produto final do processo educacional consiste na aquisição de um conjunto de conhecimentos, competências e habilidades que tornem o indivíduo apto para exercer determinada especialização profissional. Essa aquisição ocorre em diversos níveis, entre eles o de pós-graduação lato sensu, os chamados MBA. Esses cursos tanto podem ter uma abordagem generalista (MBA em Gestão Empresarial) como também uma específica; por exemplo, em Logística.

O modelo MBA, regulamentado em 2001 pelo Conselho Nacional de Educação – CNE, por meio da Resolução nº 1 da Câmara de Educação Superior – CES, tem sido, por muitos, contestado quanto à sua eficácia. Muitas razões são alinhadas para explicar o baixo rendimento obtido por grande parte dos profissionais egressos de muitos desses cursos. Alguns pontos levantados são:

(a) baixa qualidade dos cursos de graduação, tanto de administração como de
     engenharia, origem da maioria dos alunos;
(b) proliferação de cursos, sem que haja quantidade suficiente de docentes
     habilitados;
(c) currículos ultrapassados, sem atentar para as mudanças ocorrentes no
      mundo globalizado;
(d) multiplicidade de escolas sem infra-estrutura acadêmica;
(e) deficiências do corpo docente atuante em muitos dos MBAs;
(f) reduzido grau de ação regulatória e fiscalizadora do MEC.

A competição globalizada em busca de qualidade e produtividade é o grande desafio a ser vencido. O perfil do emprego vem mudando continuadamente, exigindo dos recursos humanos uma gama de conhecimentos e experiências que ultrapassam o conceito tradicional de “profissão”. O profissional demandado pelo novo ambiente não é mais o produto das escolas clássicas, detentor de conhecimentos e habilidades limitados a um universo restrito.       O novo “produto” deve ter, cada vez mais, características interdisciplinares, com capacidade para atuar em um amplo leque de exigências. Sua formação não poderá continuar sendo em série (um curso após outro) como até agora tem sido feito. É necessário que o novo profissional estabeleça suas necessidades em termos educacionais e profissionais, traduzidos em objetivos a serem alcançados, de forma radial e convergente, por meio de produtos a eles relacionados.

O simples acesso a uma das profissões regulamentadas no Brasil (perto de uma centena, a metade de nível universitário) já não é garantia de emprego.   Há anos repousa no Congresso Nacional projeto de lei que pretende desregulamentar a maior parte dessas profissões, deixando como “cartoriais” algumas poucas, relacionadas com a saúde dos indivíduos e com a segurança de pessoas e de instalações. O mercado passará a definir o tipo de profissional necessário às suas necessidades, com base em parâmetros vinculados a conhecimentos, experiência e competência comprovados.

Organizações, como pessoas jurídicas, já criaram instrumentos de diferenciação que permitem participar, com sucesso, da competição global.    É imperativo que algo, além de preços, permita aos clientes obter bens e serviços de qualidade. Uma das formas de avaliar esse grau de excelência é a Certificação ISO 9.000, 14.000 e outras daí derivadas. Uma organização reconhecida por uma entidade certificadora de renome tem maiores possibilidades de sobrevivência no ambiente da competição global.

As instituições vencedoras são reflexo dos recursos em pessoas de que são constituídas. Tais recursos devem possuir um nível de excelência compatível com os objetivos e com os desafios enfrentados por quem lhes paga o salário. Diante desse quadro, emerge a necessidade de avaliar o potencial dos recursos de conhecimento necessários para as organizações e, com base em parâmetros objetivos, certificar os que atingirem um determinado patamar de qualidade desejada.

Alguns pontos podem ser alinhados como razões pelas quais um profissional estará motivado para integrar um programa de certificação, tais como: auto-estima, confiança, conhecimento atualizado, promoção, reconhecimento profissional e participação em grupo de elite profissional.


As experiências em Certificação Profissional

A Certificação Profissional é uma atividade que vem sendo praticada nos países desenvolvidos onde há reduzido grau de interferência governamental na regulamentação profissional.

No campo relacionado à Logística, alguns dos programas mais acreditados nos Estados Unidos são os mantidos pela APICS – The Association for Operations Management, que funciona desde 1957. É uma sociedade de alcance internacional, com dezenas de milhares de profissionais certificados. Em conjunto com a certificação, a APICS oferece uma grande variedade de programas educacionais e serviços relacionados a todas as atividades concernentes à gestão das organizações.

Outros programas de certificação em Logística, de grande prestígio nos Estados Unidos, são os do ISM – Institute of Supply Management, nova denominação para National Association of Purchasing Management - NAPM, associação que funciona desde 1915. Trabalha nos moldes da APICS, porém é bem mais específica quanto à Logística, a partir da sua própria denominação. Em área subjacente à logística pode ser citado o programa de certificação em marketing da BMA - Business Marketing Association.

No campo da Qualidade há, principalmente nos Estados Unidos, na Europa e no Japão, um grande número de sociedades que possuem programas de certificação tanto para empresas como para pessoas físicas. Outro campo muito desenvolvido atualmente é o da Tecnologia da Informação, com a IBM, a Microsoft e a Novell, entre outras, implementando programas de certificação profissional. Sem falar no muito conhecido American Institute of Certified Public Accountants – AICPA, que certifica os profissionais de contabilidade.

Na maioria dos programas, principalmente na área americana, há uma integração muito grande entre a certificação propriamente dita, o treinamento (local e distância) e a troca sistemática de experiências através de seminários, simpósios e congressos realizados anualmente.


Conclusão

Do mesmo modo que ocorre com o nível de graduação, que forma, em sua maior parte, profissionais ainda não capacitados para enfrentar o mundo real, a pós-graduação lato sensu, em nível de especialização (MBA), enfrenta, em menor escala, problemas semelhantes. Profissionais com alguma prática em logística e alunos graduados em bons cursos obtêm ganhos significativos e adicionam valor às suas formações originais, principalmente quando o MBA em Logística é realizado em instituições de renome. Por outro lado, alunos com pouca ou nenhuma experiência em logística e com má formação no bacharelado não conseguem obter um acréscimo significativo em sua formação profissional. Nos dois casos, quando não há maior rigor das instituições quanto à avaliação de seus alunos de MBA, todos acabam se tornando “especialistas”, quando, na verdade, poucos realmente atingem esse patamar por meio exclusivamente dos MBAs. Dada a concorrência por empregabilidade, já não basta o MBA, mesmo que feito em boas instituições, para abrir portas, como é o caso de quem conclui o MBA na escola criadora dessa marca, a Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. Ocorre que o MBA de Harvard é stricto sensu, em nível de mestrado executivo, e a formação é rigorosa, com grande dedicação praticamente integral, além de ser devidamente mensurada.

Daí, se pode visualizar um cenário no qual vai se tornar necessário “carimbar” o diploma de MBA brasileiro ou qualquer outro diploma, não necessariamente o de MBA, com um selo de qualidade, uma espécie de garantia de que o portador ou a portadora do mesmo foi devidamente avaliado(a) por uma entidade certificadora. A vantagem da certificação profissional está em que, a cada período de tempo, em geral cinco anos, o profissional deverá submeter-se à nova certificação a fim de manter o selo de qualidade válido por outro período igual e assim por diante. Quem fez algum curso superior ou uma especialização lato sensu  há mais de cinco anos, ou até menos, e nada investiu em termos de novos conhecimentos, está, certamente, obsoleto. A certificação é um instrumento de grande utilidade para os empregadores que querem, cada vez mais, correr menos riscos quando contratam um novo empregado. Na aviação comercial, a nenhuma empresa é permitido que um piloto decole se não estiver devidamente rechecado, ou seja, com a certificação em dia. Num mundo de alta competição, as empresas tendem a só trabalhar com profissionais, de alguma forma, certificados. Pode custar muito caro arriscar um “vôo” com um piloto não certificado.

Nos Estados Unidos, a certificação profissional é muito difundida e prestigiada. Ninguém  que deseje qualidade quanto ao serviço a ser prestado contrata um contador se este não for um CPA (Certified Public Accountant). Quanto mais siglas tipo CIRM, CPIM, CFPIM, CSCP, CPM, APP (todas da APICS e ISM) estiverem impressas no cartão de visitas de profissionais de logística, maior será o seu nível de empregabilidade. Quanto mais selos de qualidade (certificações) possuir, tanto melhor.

No entanto, para concluir, é necessário cuidado ao se decidir por um dos programas estrangeiros de certificação profissional em logística ou área subjacente. A despeito de muitos deles terem grande aceitação e credibilidade, é necessário atentar para o fato de que os exames são feitos com base no ambiente de origem. Situações válidas para os Estados Unidos, principalmente nas áreas legal e tributária, não são aplicáveis ao Brasil. Assim, a tendência é que instituições de grande credibilidade no campo da formação profissional, no Brasil, passem a desenvolver seus próprios programas de certificação profissional. 
 

  Renaud Barbosa da Silva 
  Professor da FGV/EBAPE

  Coordenador do MBA em 
  Logística Empresarial

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