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O ROI do corpo e da mente

Vicky Bloch (Consultora de Carreiras e Diretora da Vicky Bloch Associados)

“Primeiro viver, depois filosofar”. Esse sábio reconhecimento de que, antes de refletir sobre nossa existência, precisamos cuidar de nossa vida, só poderia ter vindo de um grande filósofo como Thomas Hobbes. Nesta era de pressão crescente sobre as pessoas e de alta competição em todos os sentidos (no mau, das disputas constantes e ferrenhas; e no bom, dos avanços que estas trazem), ocupamo-nos ainda mais com sobreviver neste ambiente e muito pouco, ou quase nada, sobra para nossos ideais.

Cuidar do corpo, da alma, da mente, do amor, dos filhos, dos amigos, das finanças e ainda ser bem-sucedido profissionalmente neste clima de guerra? É preciso encontrar um tempo, em meio a tudo isso e sem abandonar qualquer uma dessas atribuições, para uma reflexão sobre como estamos vivendo.

Outro importante filósofo, o romano Sêneca, disse que “não há maior escravidão que uma grande carreira”. Ele teve seus motivos para chegar a essa conclusão. Era um pensador do estoicismo, doutrina segundo a qual a alma pertence ao cosmos (palavra que, em grego, significa harmonia), e este é regido pela lei da razão universal. Assim, o homem estóico deve viver racionalmente, livre de paixões e de apego a coisas. Por isso, é conhecido também como insensível. Mas Sêneca teve sensibilidade para avaliar como era difícil praticar o que desejava. Ele era um homem rico que procurava viver modestamente, comendo pouco, bebendo somente água e dormindo sobre um colchão duro. Foi preceptor e principal conselheiro do imperador Nero. Bem que tentou orientá-lo para um governo justo e humano. No entanto, acabou se dobrando ao pragmatismo da política. Até defendeu publicamente a execução da mãe de Nero. Ao ser criticado pelas contradições com o que pregava, Sêneca se defendeu: “Eu elogio a vida; não aquela que levo, mas aquela que sei dever ser vivida”.

O que dizer, então, das pessoas mais comuns, que lutam diariamente por um lugar num mercado onde só há incertezas? As tensões, os conflitos e o medo solapam as relações. Dedicamos tanto esforço a administrar nossa vida profissional que quase não resta ânimo para todos os outros aspectos, que, geralmente são os que mais nos motivam a trabalhar.

Claro que a carreira, por si só, deve ser uma de nossas fontes de felicidade. Porém, por mais que adoremos fazer o que fazemos, o estresse existe e é permanente. A conseqüência natural é querer fugir do cotidiano em busca de outros prazeres. Portanto, se as obrigações do dia-a-dia não nos fazem felizes, damos ainda menos atenção para cuidar da gente.As pessoas conhecem, e muitas sentem, os efeitos da negligência com o corpo e com a mente. Boas empresas investem em programas de saúde. Mas estarão os indivíduos e as empresas preocupados em tomar consciência de seus atos?

De que adianta montar uma bela academia de ginástica na empresa e continuar massacrando os funcionários com um clima de pressão além do aceitável? De que me serve praticar exercícios se vivo mal comigo, por não saber gerenciar minhas escolhas?

O corpo (tanto o humano quanto o corporativo) apenas reflete o tratamento que lhe dispensamos. E como bem definiu o escritor e cineasta francês Jean Cocteau, “o corpo é o parasita da alma”, no sentido de que se alimenta e depende dela. Uma visão moderna do antigo provérbio de que a mente sã mantém o corpo são. Da mesma forma, um pensamento perturbado só pode levar a doenças, individuais ou organizacionais.

Tratar aos outros e a si próprio com dignidade é o princípio máximo da vida. Respeitar os limites não é perder competitividade; é competir de maneira sustentável. Assim se obtém o maior ROI (Return On Investment) – retorno sobre o investimento – das pessoas e das empresas.

Artigo veiculado em Março/2008, no jornal O Estado de São Paulo

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