Entrevistas

Paulo Fernando Fleury

O Brasil tem muito o que aprender em logística.

 

"A área mais deficiente de profissionais qualificados é a de previsão de vendas. Há uma lacuna gigantesca nessa área, que gera impacto importante no negócio das empresas. Envolve planejamento de produção, gerenciamento de estoques (outra área carente de pessoal qualificado) e depende de apoio da área comercial, que por sua vez não está qualificada para essa integração."

 

 

JobLog - Por que é importante a organização de cargos e funções no segmento de logística?
Paulo Fernando Fleury - Organização de cargos e funções nos segmentos de supply chain e logística é um assunto complexo porque envolve mudar uma estrutura de poder e responsabilidade. As empresas estão organizadas de forma funcional e  logística não é vista como função, mas direcionada como Compras, Estoque etc.

JobLog - Isso significa que as empresas não têm sua logística estruturada?
Fleury - A maioria das empresas não tem uma estrutura organizacional para logística com gestão integrada. Há resistência a mudanças, à perda (ou deslocamento) de poder, de responsabilidade. As atividades de logística estão espalhadas em diversos setores.

JobLog -  Que competências o mercado de trabalho exige dos profissionais de logística?
Fleury - O segmento exige competências que capacitem a pessoa a trabalhar desde planejamento de rede, uso de softwares, elevado conhecimento técnico até relações com clientes, componentes de negociação, gerenciamento de qualidade de serviço etc. Exige também expertise de legislação e conhecimento de cultura de outros países.

JobLog -  Como os profissionais brasileiros do setor podem se qualificar para atender as exigências do mercado?
Fleury - Não é comum formar pessoas para trabalhar em logística. Há poucos profissionais no País. As formações atuais limitam-se a palestras e workshops, que dão um conhecimento mínimo. Dão mais informação do que formação. No âmbito acadêmico, o curso mais aproximado do segmento é engenharia de produção.

JobLog -  Qual é o perfil básico para qualquer pessoa que deseje trabalhar em logística?
Fleury - É difícil definir o perfil, pois depende de cada função. No geral, é ideal que tenha a visão do setor como um todo, entenda o processo, trabalhe com integração de áreas e atividades.

JobLog -  Em que área o setor de logística tem mais carência de profissionais preparados?
Fleury - A área mais deficiente de profissionais qualificados é a de previsão de vendas. Há uma lacuna gigantesca nessa área, que gera impacto importante no negócio das empresas. Envolve planejamento de produção, gerenciamento de estoques (outra área carente de pessoal qualificado) e depende de apoio da área comercial, que por sua vez não está qualificada para essa integração.

JobLog -  Qual a importância da qualificação profissional dos que trabalham nesse setor?
Fleury - Todas as empresas, de qualquer setor – indústria ou comércio, varejo ou atacado, precisam de profissionais de logística qualificados.

JobLog -  O que os profissionais de RH devem saber sobre carreira em logística?
Fleury - O pessoal de RH não tem conhecimento de logística suficiente para contratar e qualificar pessoas. Mas podem dar apoio, prestar serviço  (recrutamento, treinamento). Os profissionais da área de logística é que têm de tomar as iniciativas para captar talentos no mercado e qualificá-los.

JobLog -  Quais os países que estão à frente na qualificação profissional dos que trabalham em logística? Eles são referência para o Brasil?
Fleury - O Brasil está muito atrasado em relação a conhecimento e definição do perfil de profissionais de logística. Por outro lado, trata-se de uma área crítica para as empresas, para a competitividade. O país mais avançado no segmento são os Estados Unidos. É de lá que vem o conhecimento para o Brasil crescer em qualificação e organização de cargos e funções de logística.

Paulo Fernando Fleury é professor titular da Cátedra Ipiranga de Estratégia de Operações, Diretor do Centro de Estudos em Logística da COPPEAD, engenheiro mecânico pela UFRJ. Possui os títulos de M.Sc. em Engenharia de Produção pela COPPE/UFRJ e Ph.D. em Administração Industrial pela Loughborough University of Technology, Inglaterra. É membro do Council of Logistics Management e da European Operations Management Association.

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